Brasileiros superqualificados são alvos de companhias estrangeiras

 

O Brasil, cada vez mais, exporta talentos. São pessoas com cursos de graduação e pós-graduação que se destacam profissionalmente e acabam requisitadas por empresas no exterior ou países que se interessam e pagam bem por seus fortes atributos intelectuais. Mas, essas mudanças no mercado de trabalho exigem cada vez mais jogo de cintura dos executivos. Conforme observações do professor da Escola de Administração e coordenador do programa de MBA internacional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Roberto Ruas, uma conseqüência disso é a necessidade crescente de abstração e análise das situações, por mais novas que elas se apresentem.

O simples viver fora do País acarreta aos migrantes um encontro contínuo com situações novas, impostas pelas barreiras culturais, distância e pelo idioma. Dessas situações, a conseqüência natural é o amadurecimento, que pode ser entendido como um melhor conhecimento de si mesmo e uma maior capacidade de tolerância ao diferente e de adaptação às mudanças.

Estudar e trabalhar fora das fronteiras do Brasil também confere aos viajantes um conhecimento mais abrangente da forma como sua profissão é exercida em outros lugares. Isso dá aos profissionais um melhor preparo, uma qualificação valorizada por empresas e governos, que acabam abrindo portas mais facilmente. Segundo a Organização das Nações Unidas, em 2000, cerca de 20 milhões de imigrantes com curso universitário completo e mais de 25 anos residiam nos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). "O incremento da globalização tem colocado aos administradores e aos profissionais necessidades muito particulares, como competência teórica e prática, capacidade de análise e conhecimento do mercado global. Para supri-las, há muitos caminhos, uns quantos levam ao exterior", diz Ruas.

As possibilidades incluem migração em busca de trabalho, com visto baseado na qualificação profissional; transferência para unidades no exterior de empresas que atuam também no Brasil; voluntariado; estudos de idiomas ou pós-graduação, que podem ser feitos com ou sem bolsas e cursados por completo fora do País ou em sistema sanduíche, ou seja, com uma parte aqui e outra numa universidade estrangeira. "Muitos procuram cursos de Master Business Administration (MBA), onde há três perfis possíveis: os de escolas internacionais, os de instituições nacionais que podem ter um apoio de fora do país e aqueles que possuem uma interação com o exterior, como é o caso do MBA internacional", diz.

Para o técnico em informática Marcus Ernst, a experiência internacional rendeu, no retorno ao Brasil, a promoção de suporte técnico a analista de negócios internacionais. Esse jovem de 21 anos acumulava 24 meses de experiência na sede da Softexpert no Brasil quando a empresa decidiu fortalecer suas parcerias no exterior. Surgiram dois convites para sair do País. Um para o México e outro para a Europa. "Aqui no Brasil eu já trabalhava com o apoio aos parceiros internacionais, mas não dominava o idioma. Quando apareceram as oportunidades, optei por Madri, porque sempre tive vontade de conhecer a Europa e o trabalho lá parecia interessante, como de fato foi."

O tempo fora do País rendeu a ele fluência em espanhol e conhecimento completo do funcionamento de todas as áreas da empresa. Hoje, Ernst é responsável pelo desenvolvimetno de estratégias de venda e de softwares específicos para grandes clientes, nos cerca de 30 países onde a Softexpert está presente. "Preciso terminar minha faculdade de Sistemas da Informação, mas tenho muitos planos de voltar a morar fora do Brasil. Quero ir para um país de língua inglesa, ganhar fluência no idioma, porque além de atender clientes da Espanha e da América Latina, atendo também gente dos Estados Unidos", diz ele, ao relatar que, desde que voltou a morar no País já visitou clientes no Equador e no Chile e tem viagens marcadas para a Venezuela e a Colômbia.

A Embraer conseguiu, em maio, uma liminar junto ao Ministério Público do Trabalho suspendendo o processo de seleção da fabricante de jatos executivos Gulfstream, dos EUA, que estaria selecionando engenheiros da empresa brasileira. No processo, a Embraer acusa a concorrente americana de tentar aliciar seus empregados, com a finalidade de ter acesso a seu know how e a informações privilegiadas sobre sua tecnologia.

 

Encarar desafios de mudanças traz benefícios

No caso do economista Marcelo Buratto, a transferência de país e a possibilidade de crescimento vieram casadas e por pressão do banco onde trabalha desde 1992. Há dois anos e meio na Espanha, ele diz que foi pego de surpresa pela possibilidade de mudança, mas resolveu encarar o desafio. Ele acredita que a experiência acumulada na Financeira Aymoré, que pertence ao grupo ABN Amro, lhe deu as condições necessárias para implantar com sucesso o primeiro setor de financiamento da empresa na Península Ibérica. Aos 36 anos, ele é diretor de Crédito ao Consumo.

" Na Financeira Aymoré tive a oportunidade de trabalhar em diversas áreas. Passei por comunicação, marketing, produtos, preço, planejamento financeiro e estratégico, comercial até ser responsável pela área de risco da financeira em 2003. Minha formação em economia foi pela Faap e as duas pós-graduação foram pela Fundação Getúlio Vargas. Toda esta experiência me capacitou para implementar o segmento de financiamento através de concessionários da financeira do banco na Espanha em 2004."

Ele diz que, apesar das dificuldades que enfrentou, a mudança foi positiva. "Começar um projeto do zero já é um desafio e tanto no Brasil. Fora dele, muito mais. Outra língua, outra cultura, ter que escutar muito a frase 'aqui na Espanha o mercado é diferente', quando em 80% das vezes não era. Mas o crescimento é enorme. Habilidade de negociar, de ser independente, de vender passando confiança ao cliente e aos seus funcionários quando ainda não se sabe a cultura e não se fala bem o idioma, gerenciar a pressão da matriz, controle emocional para enfrentar tudo", relata.

 

Fonte: Jornal do Comércio ( www.jornaldocomercio.com.br )

 
Serviço da MMR Brasil - Gerenciamento de Projetos na cidade de Porto Alegre.